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Babalorixá

Em mil novecentos e sessenta e três, minha mãe ficou grávida, já tinha dois filhos, e venho ser o terceiro.  Com o período de quatro para cinco meses de gravidez ela começou a ter problemas na gestação.  Estava com ameaça de aborto. Os médicos chegaram a dizer a  gravidez não iria adiante. Trabalhava, nesta época, de empregada doméstica e era filha de Santo uma senhora chamada Leda, (também conhecida como mãe Lida de Xangô) no bairro Mont'Serrat. Este local era conhecido como "bacia", pois foi um dos maiores redutos de batuqueiros de Porto Alegre. Mãe Leda era uma Ialorixá e umbandista muito conhecida pelas previsões de seus  guias  (caboclos da umbanda ). Pertencia à Nação Jêje,  pronta na religião por  mãe Nica do Bará, esta por sua vez filha de santo do famoso Joãozinho do Bará (exu byí). A casa de mãe Leda  situava-se na rua Pedro chaves Barcelos e a casa de Pai João era na rua Reingantes, uma casa dava fundos para outra.   Ciente da situação Leda de Xangô resolveu consultar seus Orixás.

O Orixá de mãe Leda era Xangô Ogodô, e a resposta  foi a seguinte:  teria que ser feito uma segurança, imediatamente, para minha mãe e para o feto. Responderam também que minha mãe estava esperando em seu ventre uma pessoa destinada a cumprir os rituais da religião, que o primeiro nome teria que ser “José”,  teria muito trabalho para me criar, mas que não desanimasse, pois os Orixás lhe dariam forças. Em fim pré disseram meu destino. No dia três de março de mil novecentos e sessenta e quatro, dia do meu nascimento foram feitos os rituais determinados pelos Orixás. Minha madrinha de batismo foi a sobrinha de mãe Leda, a Ialorixá Vera de Ossãe, também muito conhecida no meio religioso. Com o tempo minha mãe se afastou da casa de mãe Leda, e também de suas obrigações dentro da religião; eu devia ter uns oito anos de idade, já estava cursando o segundo ano primário. Nesta época fiquei muito doente, os médicos não estavam adiantando, e fui levado em várias casas de religião, a resposta sempre foi a mesma, este menino pertence aos Orixás etc.,  faziam alguns agrados aos “Santos” e eu ficava bem, e este fato aconteceu várias vezes. Minha mãe conta que, eu devia ter uns três ou quatro anos de idade, quando me levou para tomar passe numa sessão de umbanda na casa da mãe de um famoso Babalorixá e Chefe de umbanda chamado Vilson Ávila, e lá os caboclos também avisaram sobre meu destino. Meu pai se separou  de nós nesta época eu tinha nove anos, e daí em diante já tive que começar  ir em busca de trabalho para ajudar em casa.  Era jardineiro e com ele  aprendi a fazer as lidas do ofício, consegui trabalho nos jardins de muitas casas no bairro Chácara das Pedras. Acabei aprendendo também fazer ligações de água, e até instalar luz elétrica.  Trazia dinheiro para ajudar nas despesas domésticas.  Entrando para a sexta série do ensino fundamental, fui estudar no colégio Dom Luiz de Guanella, que fica na Rua Benno Mentz.  Passava em frente a uma casa de batuque na rua São Leopoldo.  Era o terreiro de Pai Tuia de Bará e do Pai Nininho de Ogum. Todos os dias passava e ficava observando o movimento na casa; sentia uma grande vontade de entrar naquele Ilê, mas faltava "motivo". Até que um dia um dos meus irmãos  ficou doente, apareceu nele uma grande ferida no pé, tipo lepra, e os médicos não estavam conseguindo curá-lo; uma vizinha sugeriu à minha mãe que o levasse na casa de Pai Tuia, e lá fomos nós; meu irmão ficou curado, começamos então a frequentar este terreiro.

Nossa vida começou a mudar, demos um salto, para ter idéia do que passávamos, a cumeeira de nossa casa era coberta com uma lona e segura do dois lados com pedra e arame, dentro de casa chovia, como na rua. A primeira obrigação que fiz foi somente com ervas "omieró" no Ori (cabeça), após algum tempo fiz um Bori. Estava com dezessete anos de idade; e já era convocado para participar dos trabalhos junto com meu pai de santo e com a saudosa Olmira de Xangô, minha vó e madrinha de religião. No ano de mil novecentos e oitenta e um, Pai Tuia de Bará e Mãe Olmira de Xangô fizeram os assentamentos de minhas obrigações. Na ocasião me deram de presente o "axé de facas e  de búzios", isto ocorreu no dia doze de dezembro; neste ano de dois mil e doze  meu Orixá, Xangô Ogodô completa trinta e um anos  de assentamento. Convivia no meio de batuqueiros "velhos", e guando levei meus pais para casa, no dia nove de outubro de mil novecentos e oitenta e dois,  estavam presentes na obrigação Babalorixas e Yalorixas como: Pai Adão de Bará de Viamão (falecido), pai Paulinho de Iemanja (falecido), pai Nininho de Ogum (falecido), Mãe Olmira de Xangô (falecida), Sr. Adão de Bará, irmão carnal do pai Tuia, Delurdes de Oxum, representando a sua mãe carnal Miróca de Xangô (falecidas), mãe Branca de Oxum (falecida), mãe Pedrinha de Iansã (falecida) mãe Preta de Oxala (falecida) Vadinho de Lodê, esposo da saudosa Preta de Oxalá e irmão de Laudelina de Bará (falecidos), Sirlei de Iemanja, Gladis de Xangô, mãe Enedina de Xapanã (falecida), Laerte de Iemanja, Zilá de Ogum, Pai Ademar de Ogum (falecido), Ostílio de Oxalá entre outras pessoas tão importante quanto estas, que prestigiaram este grande momento de minha vida, o primeiro Orixá que "chegou" dentro de minha humilde casa foi o Bará (exu Biomí) do falecido Adão de Bará, ele era um pai de santo muito respeitado, e foi um privilegio tê-lo recebido na abertura de meu ilê. Eu era um menino no meio dos anciões.

Sou bisneto de uma escrava que viveu em Lages no Estado de Santa Catarina. Meu avô, por parte de mãe, foi fruto do assédio  do senhor dono de fazenda com sua serva. Ela chamava-se Maria Inácia e faleceu com cento e dez anos de idade nesta mesma cidade

Venho seguindo minha caminhada religiosa, respeitando todos dentro da religião, do mais novo ao mais velho sacerdote. Não se deve julgar um bom sacerdote de Orixá pela sua grandeza física, por suas roupas finas, pela beleza e quantidade de guias que usa no pescoço, mas sim pelo seu ser, por aquilo que representa dentro do culto.

Hoje, compreendo que toda dificuldade do passado foi para fortalecimento dos alicerces nesta caminhada religiosa,  cujos bons frutos estamos colhendo com muita alegria.  As agruras da vida regam nossa espiritualidade e nos faz abraçar as causas dos que nos procuram em busca de auxilio no cotidiano de um terreiro de Orixá.

Tenho recebido inúmeras manifestações positivas pela criação do site xangosol. Meu testemunho é uma das provas da força de nossa religião. Em qualquer canto deste mundo a força espiritual é o caminho para  solução de nossos problemas cotidianos.  Agradeço a Deus, a Xangô e à todos os guias de luz que regem a nossa existência, pela vida e por aquilo que represento dentro dela. Mesmo assim, me vejo como um grão de areia perante o Universo Divino.

Na verdade não somos pai de santo, o Santo que é nosso Pai, somos Sacerdotes ou Zeladores de Orixá, com muito orgulho.

Eduardo Cezimbra   - Tita de Xangô.

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