Babalorixá
O Orixá de mãe Leda era Xangô Ogodô, e a resposta dos Orixás foi que, tinha que ser feito uma segurança, imediatamente, para minha mãe e para o feto. Responderam também que minha mãe estava esperando em seu ventre uma pessoa destinada a cumprir os rituais da religião, que ela teria muito trabalho para me criar, mas que não desanimasse, pois os Orixás lhe dariam forças; em fim pré disseram meu destino. No dia três de março de mil novecentos e sessenta e quatro, eu nasci; e foram feitos os rituais determinados pelos Orixás. Minha madrinha de batismo foi a sobrinha de mãe Leda, a Ialorixá Vera de Ossãe, também muito conhecida no meio religioso. Com o tempo minha mãe se afastou da casa de mãe Leda, e também de suas obrigações dentro da religião; eu devia ter uns oito anos de idade, já estava cursando o segundo ano primário. Nesta época fiquei muito doente, os médicos não estavam adiantando, e fui levado em várias casas de religião, a resposta sempre foi a mesma, este menino pertence aos Orixás etc., fizeram alguns agrados aos Santos e acabei me curando, e este fato aconteceu várias vezes. Minha mãe conta que, eu devia ter uns três ou quatro anos de idade, quando me levou para tomar passe numa sessão de umbanda na casa da mãe de um famoso Babalorixá e Chefe de umbanda chamado Vilson Ávila, e lá os caboclos também avisaram sobre meu destino. Meu pai se separou de minha mãe e de nós, nesta época eu tinha nove anos, e daí em diante já tive que começar a ir em busca de trabalho para ajudar em casa; meu pai era jardineiro e com ele aprendi a fazer as lidas do ofício, consegui trabalho nos jardins de muitas casas no bairro Chácara das Pedras, sabia também fazer ligações de água, e até instalar luz elétrica; acabei ajudando nas despesas da casa, tinha uma grande preocupação com minha irmã mais nova, a qual ajudei a criar, e estava sempre procurando trazer dinheiro para casa. Acabando o quinto ano primário tive que mudar de escola, fui estudar no colégio Dom Luiz de Guanella, que fica na Rua Benno Mentz. Ia a pé, e sempre passava em frente a uma casa de batuque na rua São Leopoldo, era a casa de Pai Tuia de Bará e do Pai Nininho de Ogum, pai carnal de Tuia de Bará. Todos os dias passava e ficava observando o movimento na casa; sentia uma grande vontade de entrar naquele Ilê, mas faltava "motivo". Até que um dia um dos meus irmãos, mais velho, ficou doente, apareceu, nele, uma grande ferida no pé, tipo lepra, e os médicos não estavam conseguindo curá-lo; uma vizinha sugeriu à minha mãe que o levasse na casa de Pai Tuia, e lá fomos nós; meu irmão ficou curado, e este acontecimento foi o estopim para minha aproximação; começamos então a freqüentar esta casa. Nossa vida começou a mudar, demos um salto, para ter idéia do que passávamos, a cumeeira de nossa casa era coberta com uma lona e segura do dois lados com pedra e arame, dentro de casa chovia, como na rua. A primeira obrigação que fiz foi somente com ervas "omieró" no Ori (cabeça), após algum tempo fiz um Bori. Estava com dezessete anos de idade; e já era convocado para participar dos trabalhos junto com meu pai de santo e com a saudosa Olmira de Xangô, minha vó e madrinha de religião. No ano de mil novecentos e oitenta e um, Pai Tuia de Bará e Mãe Olmira de Xangô fizeram os assentamentos de minhas obrigações, na ocasião me deram de presente o "axé de facas e o axé de búzios", isto ocorreu no dia doze de dezembro; neste ano de dois mil e três meu Orixá, Xangô Ogodô fará vinte e dois anos de assentamento. Convivia no meio de batuqueiros "velhos", e guando levei meus pais para casa estavam presentes no "toque (batuque) babalorixas e ialorixas como: Pai Adão de Bará de Viamão (falecido), pai Paulinho de Iemanja, pai Nininho de Ogum (falecido), Mãe Olmira de xangô (falecida), Sr. Adão de Bará, irmão carnal do pai Tuia, Delurdes de Oxum, representando a sua mãe carnal Miróca de xangô (falecidas), mãe Branca de oxum (falecida), mãe Pedrinha de Iansã (falecida) mãe Preta de Oxala (falecida) Vadinho de Lodê, esposo da saudosa Preta de Oxalá e irmão de Laudelina de Bará (falecida), Sirlei de Iemanja, Gladis de Xangô, mãe Enedina de Xapanã (falecida), Laerte de Iemanja, Zilá de Ogum entre outras pessoas tão importante quanto estas, que prestigiaram este grande momento de minha vida, o primeiro Orixá que "chegou" dentro de minha humilde casa foi o Bará (exu Biomí) do falecido Adão de Bará, ele era um pai de santo muito respeitado, e foi um privilegio tê-lo recebido na abertura de meu ilê. Eu era um menino no meio dos anciões. E assim venho seguindo minha caminhada religiosa, respeitando todos dentro da religião, do mais novo ao mais velho sacerdote. Não se deve julgar um bom sacerdote de Orixá pela sua grandeza física, por suas roupas finas, pela beleza e quantidade de guias que usa no pescoço, mas sim pelo seu ser, por aquilo que representa dentro do culto; conheci pais de santo como o pai Pedro de Iemanja, Pai Henrique de Oxum, mãe Antonia de Bará, e outros tantos, e todos eram humildes, apesar da sabedoria que tinham, um pai ou mãe de santo eram conhecidos pelos fundamentos que tinham, por seus trabalhos, pela sua história, não precisam fazer anúncios em jornais ou mostrar seus fundamentos na mídia, um sacerdote tem que respeitar o outro, temos que ter ética, limites, não precisamos se encher de "impafe", pensar que somos os maiorais, que nada nos atinge. Somos julgados a cada ato que cometemos, somos observados, não vimos, mas com certeza, somos observados, e tudo vai para balança. Um irmão deve dar a mão para o outro, nos momentos de necessidades, sempre precisaremos um do outro, temos subidas e decidas, não ficamos estagnados, firmes na vitória, todos tem seus momentos de fraqueza. As vezes vamos em visita a certas casas e o que se vê é um desfile de moda, cada um querendo ser mais do que o outro, forçam para destacar sua "importância", adoram fazer beijarem suas mãos, e que lhe batem cabeça para que todos vejam. Quem tem "roupa na mochila" não precisa de nada disto, a pessoa é o que é, sem precisar gritar para o mundo que é pai ou mãe de santo, aliás este termo, dizem os mais velhos, está errado, pois o santo é que é nosso pai, nós somos é zelador ou sacerdote de Orixá. Não aparento ter a idade que tenho, minha raça é bem conservada, e ainda sou visto como um menino, mesmo tendo quarenta e um anos, sou conhecido como Tita de Xangô, e peço a Olurum, que me conserve assim, não sou ninguém, sou apenas mais um, a serviço dos Orixás e espero poder cumprir com minha missão com êxito, se os Orixás me derem saúde para isto já está de bom tamanho. |
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