Rituais
da Nação Ijexá no Rio Grande do Sul A religião de origem africana é cultuada no Brasil desde o século XVI, trazida da África pelos negros, escravos, arrancados de sua terra para este país, que hoje, depois de tantas perseguições, lutas e desafetos podem cultuar seus Deuses de forma livre.
A religião que era somente dos negros se propagou pelo mundo, os Orixás chamam a atenção de antropólogos, estudiosos e pesquisadores alguns até se bandeando para o seio da cultura africana. Pudera os negros de outrora ter em suas mãos a facilidade que temos nos dias de hoje em cultuar nossas divindades, tenho certeza que no futuro teríamos, ainda, grandes conhecedores dos segredos, grandes conhecedores do uso dos trabalhos, das magias, das rezas, dos cultos de como fazer um Orixá, entre outros fundamentos de nossa cultura. Peço a Olurum que ilumine o pensamento daqueles antigos Babalorixás e Yalorixás que tem em seu poder os ensinamentos passados pelos seus antecessores para que passem a quem de verdade merecer saber e levem avante esta cultura linda de rituais incomparáveis. Quantas criaturas devem sua vida a gente do santo que por um ou outro motivo tiveram que fazer trabalhos, benzeduras, rezas para poderem se salvar, para poderem ter saúde, para poderem ter um trabalho, para poderem ter união, paz no lar, para poderem ser salvos de perseguições; quantos lares preservados graças a intervenção de gente do santo. A Religião Africana tem um dos mais belos rituais do nosso planeta, é uma vastidão de ciência, que vamos envelhecer, morrer e nunca vamos saber tudo da religião. Há diferentes conceitos sobre o culto aos Orixás, cada Nação, cada região do País tem uma maneira de tratar e cultuar os Orixás; faço aqui uma exposição daquilo que herdei dos antigos sacerdotes de Orixá do meu convívio e de meu Babalorixá, pai Tuia de Bará, que detem grande conhecimento dos rituais de Orixás e de Eguns da Nação Ijexá vinda para o Rio Grande do Sul. Tenho conhecimento de que um dos baluartes da Nação Ijexá, aqui no sul, foi sem dúvida, pai Paulino de Oxalá, homem de sabedoria profunda no culto; tinha entre seus filhos de religião o saudoso Pai Idalino de Ogum, Mãe Antonia de Bará e Pai Manezinho de Xapanã. Pai Manezinho formou outros grandes batuqueiros do sul, dos quais podemos citar alguns: Estela de Iemanjá, Ondina de Xapanã, Antonieta de Bará, Diva de Iemanjá, Ademar de Ogum, Miróca de Xangô, Nelson de Iemanjá, Olmira de Xangô entre outros. Da grande Mãe Olmira deu-se origem a outro grande conhecedor nos cultos africanos da Nação Ijexá e no ritual de eguns que é o Pai Tuia de Bará, filho carnal de Nininho de Ogum decendente também de Manézinho de Xapanã. Ao Pai Tuia devo meus humildes conhecimentos dentro de nossa nação e espero poder passar adiante o que me foi delegado por este Babalorixá de grande sabedoria. Além da Nação Ijexá há outros cultos como: Cabinda, Jêje e Oyó, que também usam fundamentos de Ijexá, já que é uma das nações mais bem conservadas no sul, principalmente suas rezas em Yoruba servem o ritual de todas as nações. Cada terreiro tem sua particularidade em fazer seus rituais, as vezes o que serve para um, não serve para outro, e isto deve ser respeitado; é bom salientar que quanto mais conservarmos os rituais de nossa feitura mais será preservada a força de nossa Nação, mantendo as tradições daqueles que nos passaram os ensinamentos, diga-se de passagem ainda tem gente cheia de dúvidas. A Religião Africana que era exclusiva dos grupos negros descendentes de escravos, mudou, se espalhou por todos os lugares e deixou de ser uma religião exclusiva do segmento negro, passando ser uma religião para todos; só que as velhas tradições, até alguns anos preservadas, infelizmente, com esta propagação deixaram de ser mantidas e corremos grande risco de num futuro bem próximo estarmos a mercê de gente que nada tem a ver com os cultos, que entraram para a religião por acharem bonita, interessante e uma boa fonte de ganhar dinheiro, não que para fazer os rituais não precise de dinheiro, precisa sim, mas não da maneira que estão fazendo. Antigamente um axé de Búzios e Facas eram dados a quem tinha DOM comprovado e que realmente aquele iniciado teria sido escolhido pelos Orixás, não ao contrário; só então teria argumentos para receber o aprendizado, o axé se dava, não era vendido. Por que hoje em dia se debandam uma porção de batuqueiros para a Igreja Universal entre outras? Muitas vezes estas pessoas estavam onde não deviam, pois quem é verdadeiramente do Santo já mais o abandona, por mais dificuldades que se passe não se pula de galho em galho. Há pessoas que pensam por ser do ritual africano não poderá ter uma dor de barriga; o que iriam dizer os nossos antepassados, que comeram o pão que o diabo amassou no período da escravidão, não existe no Brasil raça mais massacrada do que a do negro e mesmo assim os verdadeiros religiosos prosseguiram com sua fé nos Orixás, ou bem ou mal o ritual continua. A culpa não é só desses que vivem saltitando religiões, é também dos sacerdotes que por qualquer queixa que recebem de um consulente já acabam os colocando no chão (iniciando-os), sem necessidade, contribuindo com o entra e sai nos terreiros, deveríamos fechar mais nossas portas a esses acontecimentos, muitas vezes com um simples axé se ajuda a pessoa em dificuldades, sem precisar colocá-las em compromisso. Ao pastor o que é do pastor e aos terreiros o que é dos Orixás. Nos dias de hoje cumprir com as obrigações não é nada barato, dar uma festa de quatro pés, precisa-se de uma boa quantia em dinheiro, e não se consegue fazer se não unir várias pessoas num barco. Sabemos de sacerdotes antigos que não tem conseguido cumprir com seus rituais de obrigações por falta de dinheiro. Hoje a religião dos humildes se tornou a religião que tem o mais alto custo em seus rituais, e isto não é culpa dos religiosos, é a crise financeira que assusta o mundo. A religião que antes encontrara condições sociais, econômica e culturais muito favoráveis, hoje privilégio de poucos terreiros, deixou de ser a religião dos pobres de todas as origens étnicas e raciais e passou a ser a religião das elites, não só no sul, mas em todo Brasil. A princípio a expansão da religião deveria ser para a conservação dos rituais, temo que aconteça ao contrário, peço ao grande pai Oxalá e à Olorum, que ilumine a mente dos verdadeiros sacerdotes para que possam refletir sobre estes fatos e passar a formar verdadeiros herdeiros dos segredos nos cultos Africanos. Há
também o culto aos eguns, que há poucos que dominam
bem esta parte da religião. Este é o lado mais melindroso
de nossa religião, não é uma coisa assim tão
misteriosa, porém, não se faz este ritual com freqüência,
assim como fizemos para os Orixás. Hoje em dia todos querem
ter o assentamento de Balê; antigamente só sentava Balê
quem tinha pai ou mãe de santo falecidos(dentro da Nação
Ijexá), para poder ter um egum chefe dentro do Balê;
As rezas de eguns são poucas pessoas que sabem tirar como nos
tempos passados. É importante que , aqueles que ainda detem
conhecimentos no culto aos eguns que passe aos seus descendentes religiosos,
assim como os trabalhos, trocas, limpezas, rezas e outros fundamentos
da religião africana. Nas décadas passadas quando um
Babalorixá ou uma Yalorixá precisava passar uma limpeza
ou fazer uma troca, enfim , qualquer tipo de trabalho os seus próprios
filhos de religião estavam aptos para fazer, hoje em dia, muitas
vezes tem que depender de sacerdotes de outros terreiros; e nem sempre
se cai em boas mãos. Quando falecia um pai ou mãe de
santo os filhos da casa eram quem faziam as obrigações
de erissum (èrìsún); hoje muitas vezes dependem
de gente de outras casas para fazerem este ritual, se morre alguém
da Nação Ijexá é importante que o èrìsún
seja feito por gente da mesma Nação e assim por diante. |
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